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Gazeta Mercantil - SP 19/08/2005 - 15:51 |
O cinema político e o envelhecimento das idéias
Se o cinema é ideologia, todo país deverá se preocupar com sua produção. Dificilmente o mesmo pode ser pensado com as artes plásticas
Jane de Almeida*
Falar de cinema é falar de política. Mesmo que se pense em um filme como "Cantando na Chuva", o belíssimo musical com Gene Kelly, qualquer leitor mais atento sabe que o mundo fechado do estúdio e do amor puro e descompromissado é o mundo que se quer como mundo e não a realidade de mundo. Trata-se, evidentemente, de ideologia, em sentido mais amplo. Já em sentido mais estrito, o cinema político é aquele preocupado com política e marcado pela idéia de esquerda. Nos anos 60 e 70, a alcunha "cinema político" estava em voga e vários filmes, como "Z", de Constantin Costa-Gravas, ou "Queimada" de Gilles Pontecorvo foram vistos como importantes discussões políticas. Filmes com claros conteúdos de esquerda, apresentavam o modelo daquilo que não se deveria fazer e daquilo que se deveria ser, entendido como ser contrário ao governo vigente. Muito se denunciou e se discutiu sobre ditaduras e colonialismos. Esgotada essa perspectiva, outras versões começaram a ser desenvolvidas no cinema, como a troca de lugares e exploração dos motivos da direita ou a tendência a humanizar o lado mau dos filmes anteriores.
Todas partem da mesma lógica, pois suas narrativas trazem a espantosa certeza sobre a verdade do mundo. Em suma, são filmes que não duvidam de seus pontos de vista, menos ainda duvidam deles mesmos.
Ao lado dos "cinemas políticos", há também as "políticas de cinema". Pergunta-se: Que filmes o Brasil deve produzir? Se o cinema é ideologia, todo país deverá se preocupar com sua produção. Dificilmente o mesmo pode ser pensado com as artes plásticas. Por mais que algum movimento artístico tenha preocupação de cunho político, ou por mais que se tenha na lembrança os movimentos artísticos diretamente ligados ao Estado, não é tão comum encontrar pessoas perguntando publicamente que arte o Brasil deve produzir.
Claro, há o problema do dinheiro, pois o cinema custa bem mais ao País. Mas parece-me que o custo é bem menor do que a preocupação que causa e, do lado inverso, a atual crise política mostra o quanto custa construir uma imagem. Ironicamente também, a atual crise política mostra bem como é fácil destruir a imagem construída à custa da lógica do modelo do contrário. Basta o inimigo fazer o mesmo em posição contrária. No nosso País, antes que isso acontecesse, a própria revelação do que se gastou para construir a imagem foi suficiente para desconstrui-la. Mas é importante ressaltar que a imagem construída foi ela mesma auto-implosiva, dado ao patético revelado pela fragilidade do mito do homem bom, de origem pobre, usado de forma maniqueísta.
Não é novidade a argumentação sobre a ética da forma. Quando o cinema reivindicou a possibilidade de "fazer politicamente filmes políticos" incluiu em seu menu a reflexão de todo o sistema cinematográfico. Jean-Pierre Gorin, parceiro de Jean-Luc Godard no grupo Dziga Vertov, diz acreditar haver dois tipos de cinema, um do idioma e um da gramática. O cinema do idioma tende a funcionar na estabilidade das convenções, enquanto que o da gramática é um cinema que interroga essas convenções. O primeiro é certamente mais atraente, busca a identificação e a culpa do espectador. Ele apresenta uma imagem integral, sem fissuras, heróica e até sofredora em sua sedução masoquista. O segundo é mais intrigante, cheio de armadilhas e cativa o espectador em sua divisão subjetiva, pois o obriga ao deslocamento contínuo de lugar, de dentro para fora e de fora para dentro. Não apenas o homem deste cinema é fissurado, mas também o próprio filme é fragmentado.
No entanto, nenhuma das duas posições garante a cura das feridas internas e uma auto consciência compassiva. Então, qual seria a vantagem da segunda posição? Não seria melhor ficar no conforto da primeira?
De certa forma, essa mesma questão foi feita a Freud e à psicanálise: para que passar pelo processo de psicanálise e saber mais sobre mim mesmo se não há garantia de cura?
Dentre as possíveis respostas dadas por Freud, duas se destacam. A primeira é que quanto mais se conhece, maiores são as chances de saídas em momentos de crise. A segunda, mais trágica, é que não se escolhe a divisão subjetiva. Nesse sentido, ela não pode ser ensinada.
Alguns anos depois de um cinema político engajado em uma narrativa tradicional e atraente, com maior audiência, e um cinema político que ousou interrogar as convenções do próprio cinema pensando nele como materialidade política, um aspecto parece vislumbrar a favor do segundo tipo: ele envelhece com muita dignidade. É mais fácil identificar as deficiências, decepções e complexidade do mundo contemporâneo no enredamento dialético do filme que questinou a gramática do cinema e, portanto, as contradições do poder, do que nas certezas da esquerda que nunca se projetou no lugar daquele que criticou.
*Curadora da Mostra Dziga Vertov e organizadora do livro Grupo Dziga Vertov (Witz edições). Professora do Mestrado em Educação, Arte e Cultura da Universidade Mackenzie e de Comunicação e Multimeios da PUC/SP. Foi visiting fellow da Universidade Harvard no primeiro semestre de 2005, com apoio da CAPES/MEC. |