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Correio Braziliense - DF 21/08/2005 - 11:32 |
O poder das imagens
Na cabeça das pessoas, aumenta o crédito dos que fazem políticas “humanitárias”, assistencialistas, em lugar dos governos, que deveriam generalizar direitos
Emir Sader
O poder, nos nossos dias, seja o dos governantes, seja o dos artistas ou dos papas, depende da mídia eletrônica. A convicção racional, como foi moldada nos tempos de domínio da palavra escrita, foi superada pela sedução das imagens.
A passagem do reino da palavra escrita à “civilização das imagens” foi paralela a outros processos de deslocamentos: a promoção do local, do urgente, do concreto, no lugar dos princípios, dos argumentos, das análises, das visões de mundo. O declínio dos sindicatos e dos partidos em favor das redes e dos lobbies. A substituição dos órgãos governamentais de planejamento de médio e longo prazos pelos bancos centrais e suas instâncias de monitoramento conjuntural, de acompanhamento de uma realidade que escapa ao Estado. O esvaziamento das instâncias de representação política em benefício das pesquisas de opinião.
A eliminação das fronteiras entre o público e o privado, substituindo o debate de idéias pelos temas da moralidade, autonomizados em relação à política. O poder cada vez mais ditatorial da imprensa privada, substituindo a Justiça, a opinião pública democrática, a expressão da cidadania. A degradação do serviço público e sua desmoralização, em benefício da lógica do custo/benefício ou do “voluntariado” e da filantropia. A substituição dos direitos pelas “oportunidades”, da universalização dos direitos por programas focalizados e emergenciais. Nas campanhas eleitorais e na vida política em geral, a televisão substitui as concentrações públicas, os políticos falarem não para o “povo”, mas para os indivíduos, privadamente recluídos no seu círculo familiar.
Na cabeça das pessoas, aumenta o crédito dos que fazem políticas “humanitárias”, assistencialistas, em lugar dos governos, que deveriam generalizar direitos. Substitui-se a ação dos governos, que deveriam chegar a todos, especialmente aos mais desvalidos, pela ação pontual de empresas e fundações privadas, que escolhem o que vão fazer, conforme seus critérios e necessidades.
Paralelamente a esses dois movimentos, as alocuções presidenciais—mas também dos candidatos durante as campanhas eleitorais — apelam para vocabulários familiares, com planos dos rostos dos governantes ou candidatos no máximo de intimidade. Uma falsa intimidade, porque maquiada e porque tentam fazer passar que essa proximidade facial representaria proximidade com seu ser social, com o que representam suas idéias. O fascínio é buscado pela aproximação, e não pela distância, pela banalização, e não pela apologia da sua transcendência. Aumenta o peso dos elementos não verbais da mensagem, friamente calculados — falar para a câmara ou não, mudar de câmara em algum momento da alocução, definir a cor da roupa, o tipo de gravata, de luz, de música introdutória, de cenário de fundo, de expressões do rosto.
A televisão dessacraliza a imagem, da mesma forma que a imprensa escrita tinha dessacralizado a palavra. No reino da imagem, até o jornal tem mais a ver com a televisão — a que a gente passa os olhos, lê os títulos apenas —, do que com os livros. Folheamos as páginas como se estivéssemos mudando de canal com o controle remoto.
O próprio sentido da palavra público foi passando do seu sentido vinculado a povo, a cidadania, para a de espectadores. Paralelamente à perda da ação como cidadãos, as pessoas passam a ter como principal gasto de tempo — depois do sono — o consumo audiovisual.
O certificado de estadista não é dado pela capacidade de decisão do governante, mas pelo teste televisivo. Na política midiatizada, a legitimidade é dada pelo desempenho na mídia, como se essa fosse a prova definitiva da competência de um candidato. Nesse sentido, é a tevê que faz o Estado e não o contrário. Compra-se, ou melhor, vende-se um governo, isto é, sua imagem. A notoriedade midiática, no entanto, não é irreversível, ela pode se reverter, mas sempre passando pela imagem.
Uma reforma ministerial do governo termina sendo algo assim como uma mudança de programação. Até a escola se torna um serviço anexo à televisão. Diante do cinzento da educação, se contrapõe o multicolor da televisão. Se o Estado clássico tinha o teatro como matriz, o Estado da era midiática se molda pela televisão. O Estado transforma a mídia em religião. O Estado não tem uma política da imagem, é a imagem que tem uma política de Estado. A arte política consiste em traduzir uma política em programa, em imagem televisiva.
(O essencial deste artigo é retirado das teses de Régis Debray, contida na sua visão da criação da midiologia, como disciplina que estuda o reino das imagens, contida em suas obras Manifestos midiológico, O Estado sedutor, Vida e morte da imagem e Curso de midiologia geral, entre outros. Creio que cabem bem como contribuição à crise atual, em que se consolida o papel da mídia privada monopolista como partido hegemônico das classes dominantes.) |