 |
O Estado de S. Paulo - SP 26/06/2007 - 07:41 |
Reduzir pressão nos condenará às armas
O consenso sobre não-proliferação é e tem sido notavelmente persistente. Menos países do que se temia adquiriram e mantiveram armas nucleares
Margaret Beckett *
O regime de não-proliferação nuclear está sob pressão. Irã e Coréia do Norte continuam a desafiar a comunidade internacional. Terroristas declararam-se dispostos a usar material nuclear. Precisamos garantir que os países possam produzir eletricidade a partir de combustível nuclear, ao mesmo tempo que fortalecemos as salvaguardas para impedir que a tecnologia nuclear caia nas mãos erradas.
O consenso sobre não-proliferação é e tem sido notavelmente persistente. Menos países do que se temia adquiriram e mantiveram armas nucleares. Os Estados nucleares declarados deram passos significativos para cortar seus arsenais: os EUA e a Rússia cortaram cerca de 40 mil ogivas desde a Guerra Fria. A França e a Grã-Bretanha implementaram cortes em seus estoques, que são bem menores.
Se quisermos obter resultados na área da não-proliferação, contudo, precisamos de mais ambição e ação ligadas ao desarmamento nuclear. A maioria dos países quer e espera que os Estados nucleares façam mais para cumprir suas obrigações no âmbito do Tratado de Não-Proliferação. O compromisso claro da comunidade internacional com regiões livres de armas nucleares, incluindo o Oriente Médio, é um pilar vital do regime de não-proliferação.
Há, no entanto, uma perigosa ausência de debate sobre desarmamento nos níveis mais altos e uma incapacidade coletiva, até o momento, de se traçar um plano claro de ações. Precisamos tanto de visão - um cenário para um mundo livre de armas nucleares - quanto de ação, com passos para reduzir a quantidade de ogivas e limitar o papel das armas nucleares na política de segurança.
Acreditar que a abolição das armas nucleares é possível pode estimular ações ligadas ao desarmamento. Acreditar que não é possível é o caminho mais certo para a inação. Agir não significa estabelecer um prazo não realista para a abolição das armas. Isso exigiria um contexto político global seguro e previsível, e isso não existe hoje. Mas podemos dar passos na direção de reduzir o arsenal e começar a pensar sobre como eliminá-las completamente. Londres anunciou um corte adicional de 20% das ogivas que possui. Se as condições fossem adequadas, eliminaríamos o restante.
Em âmbito global, precisamos de três passos, cada um representando um movimento positivo na direção de um mundo livre de armas nucleares. Primeiro, reduções no número de ogivas, especialmente nos maiores arsenais do mundo. Quase ninguém - entre políticos, estrategistas militares ou cientistas - acredita que tais arsenais ainda sejam necessários para garantir segurança. Segundo, maior pressão para a conclusão do Tratado Abrangente de Proibição dos Testes Nucleares e do Tratado de Redução de Materiais Físseis. Ambos limitam o poder dos Estados de desenvolver armas nucleares. Em terceiro lugar, reavaliar a forma como administramos a transparência e verificação globais - construindo um arcabouço que dê às pessoas a confiança para fazer cortes mais profundos em seus arsenais e, um dia, abrir mão definitivamente da capacidade nuclear.
Se nosso esforço pelo desarmamento diminuir, se nos permitirmos não dar a justa importância ao consenso sobre a não-proliferação, a sombra nuclear sobre todos nós vai se estender e aprofundar.
*Margaret Beckett é chanceler britânica |