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A Tarde - BA 26/06/2007 - 07:41 |
Na urna e na bola
O Brasil se prepara para os Jogos Pan-Americanos, as olimpíadas do continente, de 13 a 29 de julho
Eliano Jorge
Os três países mais influentes da atual geopolítica sul-americana embalam-se pelo ufanismo esportivo.
A velha estratégia populista, herança das ditaduras que sangravam estes povos simultaneamente, vai de esquerdistas a direitistas, transitando generosamente pelo centro.
Os benefícios à população são risíveis. E evocam o circo romano. Mas sem pão.
O Brasil se prepara para os Jogos Pan-Americanos, as olimpíadas do continente, de 13 a 29 de julho. A Venezuela abre, hoje, a Copa América, mais antiga competição de futebol entre seleções.
Anteontem, foi eleito para governar a capital argentina o presidente do Boca Juniors, clube mais popular do país e que conquistou, quarta-feira, a Copa Libertadores da América.
A megalomania do presidente Hugo Chávez promove excessivas nove cidades-sede venezuelanas.
Construiu cinco estádios para o evento, num país que não tem o futebol entre seus esportes prediletos. Obras serão entregues, quase inacabadas, nos dias das inaugurações.
E consumiram mais verbas públicas do que se previam. Exatamente como no Pan do Rio de Janeiro, que deixará poucos legados práticos ao povo e muitas promessas não-cumpridas.
Lula abriu a mão ao ineficiente comitê organizador, disposto a acalentar o sonho de abrigar as Olimpíadas de 2016, o que só será possível com um sucesso agora. A candidatura única à Copa do Mundo de 2014 agrega-se a esta plataforma. O futebol ajudou o milionário Maurício Macri, de centro-direita, a golear o ministro da Educação, Daniel Filmus, com mais de 60% dos votos no segundo turno, pela prefeitura de Buenos Aires. E a tornar-se a mais expressiva figura da oposição ao presidente Néstor Kirchner, ainda dono de alta popularidade. Ele foi mais votado na capital e disparou em bairros pobres. Seu principal cabo eleitoral atuou nos gramados: o craque Juan Román Riquelme, da seleção.
Arriscando as finanças do seu Boca Juniors, Macri investiu mais de R$ 10 milhões para repatriar o ídolo, que brilhou na reconquista da Copa Libertadores. Não à toa. O dirigente ensaiou disputar a presidência da república em outubro de 2007. Agora, adia os planos por quatro anos.
Em 2003, quando fracassou na primeira tentativa ao comando da capital, também empreendeu esforços futebolísticos. Conquistou os torneios continental, nacional e mundial. Porém, nas urnas, caiu no segundo turno.
Seu prestígio de competente administrador se deve à recuperação do Boca a partir de 1995. O novo prefeito o transformou em potência planetária, grife mercadológica, hegemônico na América.
Manteve a identidade do clube com as camadas populares e as inebriou com uma profusão de troféus, na mais gloriosa época boquense.
Na corrida eleitoral, Filmus aceitou a disputa boleira, bancando o torcedor ilustre e pegando carona no incomum título argentino do San Lorenzo, sobre o Boca. Escolheu mal. Com motes patrióticos, Chávez e Lula não correm este risco. |