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A Tarde - BA 26/06/2007 - 07:42 |
Mal contagioso
Abstraído, melancólico, o senador Renan Calheiros troca o diálogo com seus pares por um mergulho nos sentimentos
Editorial
Uma das últimas fotos de Renan Calheiros (PMDB-AL) mostra-o sentado, solitário, na cadeira presidencial da mesa diretora do Senado, que está vazia. No plenário não há senadores à vista.
Abstraído, melancólico, o senador alagoano troca o diálogo com seus pares por um mergulho nos sentimentos.
Não há de ser um diálogo com a consciência, porque o presidente do Senado apagou do seu dicionário a palavra renúncia ou licenciamento. Entende-se: ele acumulou, desde os primórdios do governo Lula, considerável soma de poderes, aos quais se habituou. Ele, os irmãos Olavo e Renildo, que são deputados, e o ex-governador Teotônio Vilela (PSDB-AL) encaminharam emendas parlamentares ao Orçamento da União no montante de R$ 38 milhões. Algumas, ainda não liberadas.
Vale a pena lutar pelas primícias do paraíso, nesse caso representado pelo poder político. O problema é que à sangria de Calheiros corresponde o sangramento do Senado. A instituição está visivelmente constrangida, porque o seu presidente, acusado de quebra de decoro parlamentar, em movimentação financeira que o liga a um lobista da empreiteira Mendes Junior (a mesma da construção do porto de Maceió), permanece no cargo, de onde irradia influência.
A pauta do Senado acusa, a essa altura, congestionamento de matérias.
A crise Renan, problema pessoal, adquire foros de crise de governo. Provavelmente o presidente da Casa e seu grupo aliado ganham tempo para liquidar o processo no Conselho de Ética, em agosto, após o recesso parlamentar. Valem subterfúgios, como sejam recibos fraudados, no esforço de, até lá, esvaziar denúncias.
Aliás, em benefício do esquecimento, já está em andamento outro episódio, o de Joaquim Roriz (PMDB-DF). Um escândalo lava outro. O Conselho de Ética continua sem relator e não sabe o que fazer nem como fazer. O caso Renan adquiriu dimensões insuspeitadas, difíceis de disfarçar no bojo do corporativismo.
Uma inverdade é necessária para justificar outra – e assim, de emenda em emenda, constrói-se a catedral da dissimulação. Calheiros tem razão: não se renuncia ao governo do paraíso. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, o índice de aproveitamento das emendas do grupo Calheiros ao Orçamento chega a 76% – o dobro da média dos demais parlamentares. |