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O Estado do Maranhão - MA 26/06/2007 - 07:44 |
Sou de São Luís
E querer estar por aqui, é também querer melhorar
Andréa Leite Costa
“Sou de São Luís”. Essa expressão ficou a procurar-me o raciocínio alguns minutos outro dia, enquanto visitava alguns bairros da capital. Ocorreu-me a teoria que ser de São Luís é pertencer a esta, e não o contrário. De repente comecei a ver tudo por um jeito muito bonito e singular... Ser de algum lugar é ser daquele lugar, é ser mais um. Não encaremos o “ser mais um” num sentido inferior ou ruim, mas dum jeito mais que nobre: ser uma pecinha de um todo que mantém a cidade viva, acordada... Pareceu-me logo um fato muito importante: ser de São Luís...
São Luís me tem! A mim e aos outros, ao pipoqueiro da esquina com seus seis filhos e sua mulher adoentada, ao médico diagnosticando um paciente numa clínica do centro, ao vendedor ambulante que escuta Tribo de Jah em seu radinho de pilha, a Gonçalves Dias e seus poemas todos, a Alcione e a sua voz grave, a dona Faustina da Praia Grande, as crianças que brincam de canção na ilhinha, e a menininha que penteia o cabelo enquanto sonha em ser modelo, ao velho com seu guarda-chuva preto, e aos restos mortais de gente outrora importante que repousam nas igrejas. Os urubus que circulam a área do portinho, as libélulas mortas na ponte São Francisco, o canto dos bem-te-vis do parque do Bom Menino, e demais quadros de suas paisagens: isso tudo é a própria cidade. Logo, como eu faço parte disso, sou também a cidade. Sou São Luís. E quando ando por outras paragens, não deixo de ser São Luís. Sou São Luís em São Paulo, meio assustada com o tamanho dos prédios e as feições sérias dos transeuntes. Sou São Luís em Pernambuco, maravilhada com os ritmos com a culinária de lá, sou São Luís em Goiás, escutando música sertaneja e tocando sanfona. E eu posso deixar de ser São Luís? Não! Eu posso até passar a ser São Luís e São Paulo, São Luís e Pernambuco, São Luís e Goiás, mas deixar de ser ludovicense uma vez que tenha sido, jamais!
Ser São Luís é passar a ser meio transparente, é sumir no meio das ruas, é ser uma pincelada suave num quadro sendo pintado na praça Deodoro, é ser São Cristóvão, Macaúba, Madre Deus, Areinha, Renascença, Apicum, Desterro, Calhau, sem ser bairro nenhum. É ser quente e chover, é ser reggae de radiola, é ser tambor de crioula, cacuriá, bumba-meu-boi, tapioca, peixada ao molho de camarão, arroz de cuchá, cuzcuz com manteiga. É ser parede, azulejo, canhão, mar, praça Benedito Leite, praça Gonçalves Dias, Fonte do Ribeirão, praça Nauro Machado, Teatro Arthur Azevedo, corredores da UFMA, Dia de São João, Liceu Maranhense, Escola Técnica do Maranhão, Cegel no Canto da Fabril, Marista, Dom Bosco, Crescimento... Andar por aí com uma intimidade e uma paz tão grande que só se sinta por aqui. Ou pelo menos se sinta sempre aqui. É se sentir em casa, é se sentir. Isso mesmo. Se sentir aqui. Sentir-se São Luís.
E querer estar por aqui, é também querer melhorar. É querer ver essa ilha se dilatar numa grandiosa metrópole, é querer ver todo mundo conquistando o seu lugar, trabalhando mão a mão, juntando esforços, a se ajudar. Sendo assim, é também desejo de sorrir pra todo mundo, de aprender todas as canções que podem descrever a beleza destas terras, é ânsia por se fazer conhecer, e ao mesmo tempo permanecer, pra que não mude o que de mais bonito se tem, a simplicidade de um viver tranqüilo, o preguiçoso embalado das manhãs ensolaradas. Ser São Luís é sentir tristeza, amargor, revolta em ser ver todo dia, em noticiários e em revistas, a forma como outros filhos dessa mesma mãe, se valem pra roubar o que lhe faria crescer, é ter asco pela política enganadora, falaz.
Como se calar e somente assistir à violência que se faz quando se tira das mãos de um trabalhador, os direitos que sua classe tem? Como fingir que não se vê que as mudanças não chegam, que a mentira é propagada como se fosse verdade, e o espírito rebelde dessa ilha se fez reencarnar como um espírito comportado e fraco, que facilmente se pode passar pra trás? Não se pode! Talvez seja hora de reencarnar, não como um rebelde sem causa, mas como um espírito de força, conhecimento e poder.
E ser São Luís é tão mágico, tão belo, tão leve, tão poético, tão próprio... Só é triste quando eu sou pobreza, quando eu sou ignorância, quando eu sou fome, eu sou desespero, eu sou caos, eu sou corrupção... Mas eu não estou aqui é pra mudar? Mudar o que sou. E sei que eu só posso mudar São Luís é me mudando, é pelo conhecimento. Senti vontade agora de ser São Luís em todo canto: São Luís em Paris, Nova Iorque, Toronto... A certeza da volta que me impulsiona a vaguear por aí, São Luís são braços negros e robustos, que te envolvem numa tarde quente, e te fazem acreditar que o mundo não se resume a São Luís, mas essa cidade é mesmo o melhor lugar pra se estar. E o destino queira que nada mude, que eu não venha um dia a me sentir uma estrangeira em mim mesma.
Estudante do curso de Letras da Universidade Estadual do Maranhão, 4º período. |