 |
Jornal do Commercio - PE 15/10/2009 - 10:41 |
Vida e memória em imagens e palavras
Na galeria Massangana, o maranhense Thiago Martins de Melo exibe telas autobiográficas. Na Baobá, a mineira Águeda Ferrão reúne memórias que têm a palavra como escape
Luís Fernando Moura
A afetividade no retorno à pintura figurativa ou na tessitura de uma coleção de livros-objeto. O projeto Trajetórias leva novas exposições às galerias da Fundação Joaquim Nabuco, em Casa Forte. Na Massangana, o maranhense Thiago Martins de Melo exibe dez telas em que pegada pop é autobiografia: é a exposição Sad goat. Na Baobá, a mostra Compartilhando silêncios: um resgate de recordações #3, da mineira Águeda Ferrão, faz sala de estar para uma reunião de memórias que têm a palavra como escape. As exposições são abertas hoje, às 19h, em cartaz até o dia 29 de novembro.
“Sou uma guardadora. Coleciono palavras, pequenos objetos, lugares, segredos dos outros”, diz Águeda. Em Compartilhando silêncios, móveis antigos situam uma coleção de 25 livros autorais. Águeda coleta mobília em cada cidade que vai, ampliando a dimensão de seu catálogo. “Este é um trabalho em processo. A identidade dele se reinventa quando entro em contato com as pessoas”, diz.
Declaradamente apaixonada pela palavra, Águeda dispõe aqui e acolá de títulos de sua biblioteca (de Jorge Luis Borges a Paul Beckett), criando uma atmosfera de intimidade para os livros que ela mesma produz, de forma artesanal, ou para frases catalogadas de escritores e pensadores como Ítalo Calvino, Clarice Lispector e Roland Barthes. Tece aforismos ou os reinventa. “Gosto de pensar nos textos como inacabados e recorrer a eles na hora que eu quero”, diz. É um diálogo que, afirma, trava através do silêncio.
“Baudrillard costuma dizer que, diante de um turbilhão de barulho, quem consegue distinguir um ruído é capaz de sentir o silêncio”, refere-se ao filósofo francês. “E o silêncio é a palavra, que pauta meu trabalho através da memória da minha infância, da minha adolescência, de todo o meu território de afetos”, explica. “Todos os meus livros são de cabeceira”.
Figuração
Thiago Martins de Melo acredita que jovens pintores sofrem o estigma da ingenuidade. Com dez anos de carreira, voltou às telas após se aventurar no território multimídia. “Tentei me encaixar, mas percebi que meu pensamento é pictórico”, diz. Em Sad goat, desdobramento de uma série premiada em Belém, apresenta micronarrativas autobiográficas em que vemos um claro reprocessamento da estética dos quadrinhos, dos 24 quadros do cinema e da cultura da violência. Uma leitura figurativa da rejeição. “Muitas vezes, para ser reconhecido, o pintor precisa realizar uma negação à pintura. Eu faço a negação da negação. Sou apaixonado pela pintura contemporânea”, diz, referindo-se a nomes como Daniel Richter e Anselm Kiefer.
» Galerias Baobá e Massangana, na Fundação Joaquim Nabuco – Av. Dezessete de Agosto, 2187, Casa Forte. Visitação: terças a sextas, das 9h às 12h e das 14h às 17h. Sábados, domingos e feriados, das 13h às 17h. Informações: 3073-6714. |