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Diario de Pernambuco - PE 22/10/2009 - 11:52 |
No terceiro dia do colóquio internacional sobre o engenheiro francês Louis-Léger Vauthier, na Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), ontem, a professora Claudia Poncioni revelou que ele "gostaria de ter ficado no Brasil" e só retornou para a França porque suas tentativas de permanecer trabalhando aqui fracassaram. Vauthier viveu no Recife de 1840 a 1846, como funcionário do governo da então província de Pernambuco. Além de autor do projeto arquitetônico do Teatro de Santa Isabel, ele foi responsável pela construção da primeira ponte suspensa das Américas (na extremidade da atual Avenida Caxangá), pela modernização na gestão de obras públicas e pelo pioneirismo na difusão do socialismo pré-marxista na cidade, entre outras ações.
Seu contrato expirou em 1846 e não foi renovado. Segundo Claudia, ele escrevera para outros engenheiros do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul tentando emprego naquelas províncias, mas não obteve sucesso. Vauthier então voltou aFrança, onde atuou na política e na engenharia. Elegeu-se deputado, foi preso e cassado por participar de revolta contra o presidente Luís Bonaparte (em 1849), viveu no exílio, voltou a Paris, onde foi eleito vereador, e morreu em 1901, aos 86 anos.
"Mas hoje na França ninguém conhece Vauthier", disse Claudia, que é brasileira e ensina na Universidade Paris Ouest Nanterre La Défense, na França. Uma edição em francês do diário dele foi lançada na abertura do colóquio, segunda-feira, com notas explicativas e um perfil biográfico escritos por ela. A obra deve contribuir para ajudar a torná-lo conhecido no seu país natal, acredita a professora e especialistas franceses que estão participando do colóquio. O diário de Vauthier foi publicado no Brasil com ensaio de Gilberto Freyre em 1940; uma segunda edição saiu em 1960, mas encontra-se hoje esgotada. No próximo ano deve ser publicada a versão em português do diário, com tradução de Claudia.
Outro participante do evento, o professor Frank Svensson, da UnB (Universidade de Brasília), também destacou o "esquecimento" a que Vauthier estaria relegado na França. "É preciso despertar a atenção sobre o que ele fez lá. Aconteceu com Vauthier na França algo semelhante ao que aconteceu no Brasil com Josué de Castro, uma sumidade hoje mantida aqui em banho-maria", disse Svensson. Médico, geógrafo e cientista social, Josué (1908-1973) é autor do livro Geografia da Fome (1946). Foi cassado pelo regime militar e morreu no exílio em Paris, aos 65 anos. "Os dois foram vítimas de pensamentos dominantes diferentes dos deles", afirmou Svensson, que nos anos 70 fez pesquisas sobre Vauthier em Paris.
O colóquio internacional reúne especialistas em áreas diversas como história, arquitetura e urbanismo. Será encerrado hoje, com quatro mesas redondas. A primeira tem início às 9h, no auditório Calouste Gulbenkian da Fundaj (Av. 17 de agosto, 2187 - Casa Forte), com entrada franca. Mais detalhes no site oficial do evento:
www.ufpe.br/vauthier09. Além das palestras há na Fundaj uma exposição sobre o engenheiro francês, com itens raros como os originais do diário dele. O evento faz parte da programação oficial do Ano da França no Brasil.