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O Estado de S. Paulo - SP 02/03/2010 - 11:58 |
A partir de hoje, quem andar pela passagem subterrânea da Rua da Consolação, aquela que sai da entrada do cinema HSBC Belas Artes e vai até o outro lado, chegando quase à Avenida Angélica, vai se deparar, a cada dia, com um artista munido apenas de lápis grafite, desenhando numa parede branca de cerca de 30 metros do local. Trata-se do projeto Em Obras, a realização de um desenho coletivo e em preto e branco, feito diariamente por 30 criadores, que depois será apagado pela mesma turma - a obra efêmera será mais uma ação performática a mexer com a percepção do público. Hoje o artista Hélio Bartsch dá o ponto de partida no desenho até que, dia 31, Daniel Nogueira de Lima comece a fazer os últimos traços do trabalho. Depois, em abril, sem remorso nenhum, os participantes vão pegar borrachas e lentamente apagar a obra durante mais um mês, deixando a parede novamente branca.
"Nem sempre as pessoas que estão andando por lá olham para nosso trabalho, não dá pra contar apenas com isso", diz a artista Juliana Kase, de 29 anos, uma das organizadores do projeto. Em 2008, ela, Hélio Bartsch, Juan Castro, José Roberto Vazquez e Luiz Felipe Dib fizeram uma exposição mais "convencional" na passagem da Consolação (que abriga originalmente livreiros), na qual cada um apresentou uma obra individual. "Meu trabalho ficou invisível e fiquei incomodada com aquela situação, frustrada mesmo. Mas foi essa frustração que nos motivou a pensar um novo projeto para o lugar, uma exposição que pudesse agir de uma maneira diferente no público passante", conta Juliana.
Em 2009, quando a sub-Prefeitura da Sé, responsável pelo local, agora reformado, aprovou um novo projeto dos artistas para essa mesma passagem, surgiu a ideia de fazer algo novo: expandir a ação e convidar outros criadores (eles vão da faixa dos 20 aos 40 anos). "Um amigo foi chamando outro e no final ficamos com um grupo de 30 artistas", diz Juliana - até mais gente queria participar, mas ficou de fora. "Aí pensamos em realizar um desenho e apagá-lo, que seria algo mais processual, livre, coletivo e perceptivo", continua ela, que vai estar na passagem no dia 13. O desenho é o gênero que une todos porque é o que todo artista faz, independentemente da área em que atua - seja como esboço de ideias, seja como obra final.
O importante do projeto Em Obras é ser uma ação totalmente feita por artistas: não tem curador, galerista, produtor, nem a máquina de arrecadar dinheiro por trás da iniciativa. "É raro hoje em dia algo assim, já que o sistema está totalmente ligado a instituições, a editais", diz a artista Márcia de Moraes, também de 29 anos e uma das criadoras que, coincidentemente, apenas se dedica a criar desenhos (ela vai desenhar no local no dia 16). A Prefeitura de São Paulo apenas cedeu o espaço. "A gente se dividiu e cada um se dispôs a ajudar o projeto como pôde", conta ainda Márcia. A loja Pintar!, por exemplo, deu o material para os artistas: dois lápis e duas borrachas para cada um usar.
O grupo, que ainda conta com artistas como Alice Shintani, Helen Faganello, Laerte Ramos, Beatriz Nogueira, Henrique de França, Jérôme Florent, Cesar Fujimoto, Leopoldo Ponce, Alice Freire e Flávio Cerqueira, também criou um site em que se pode acompanhar o processo:
www.em-obras.com. Por meio dele, os interessados podem ver fotografias de registros diários da ação, notícias e textos.
Serviço
Em Obras. Passagem Subter-rânea da Consolação. Rua da Consolação, s/n.º. De 2.ª a 6.ª, 7h/22h; sáb. e dom., 10h/22h. Até 30/4.