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Valor Econômico - SP Valor Econômico - SP
05/03/2010 - 10:23

Os últimos dias de Johnny Cash
Dilema da mortalidade fica ainda mais evidente em novo póstumo, "Ain't no Grave"

Da Redação

V"American Recordings VI: Ain't no Grave". - Johnny Cash

Em maio de 2003, Johnny Cash sofreu um baque inesperado. Seu estado de saúde já era de amplo conhecimento público. Anos antes, fora diagnosticado com síndrome de Shy-Drager, doença neurodegenerativa devastadora. Sofria ainda de diabete e sequelas de uma recente pneumonia. Àquela altura, "The Man Comes Around" (2002) já era analisado como álbum epitáfio.

Morre, então, June Carter, companheira de quase quatro décadas - e figura-chave nos momentos de superação pessoal do cantor, como bem enfatiza a cinebiografia "Johnny e June". A notícia trouxe o que parecia um consenso: Cash não duraria muito sem o suporte sempre incondicional da mulher. De fato, ele morreu quatro meses depois, não sem antes gravar mais de 50 faixas com o produtor Rick Rubin. O foco no trabalho foi sua maneira de atenuar a reta final.

"Ain't no Grave" vem das mesmas sessões do anterior "A Hundred Highways" (2006), primeiro póstumo - o segundo, se contarmos "Unearthed", box de sobras dos primeiros quatro títulos da série "American Recordings" (em tempo: o projeto de Rubin que salvou Cash do limbo fonográfico). Em cadeira de rodas, quase cego, o bardo country canta os dilemas da mortalidade por um fiapo de voz - mas ainda trovejante e redobrada em carga emocional.

A temática moribunda é uma constante nos álbuns finais de Johnny Cash. Mas Rick Rubin parece ter reservado a este volume as escolhas mais sombrias do cantor. Quase todas as faixas lidam diretamente com morte, perda, fé e redenção. "For the Good Times" (Kris Kristofferson) é pura aceitação do fim: "Vamos apenas nos lembrar do tempo que passamos juntos/ não há razões para olhar as pontes se queimando". Em "Ain't no Grave", canção-título, Cash anuncia que está indo ao encontro dos pais, assim que passar pelo "check in" dos seus fardos. A faixa, composta pelo pastor Claude Ely, foi a última que o cantor gravou. Cash aparentemente fez ajustes na letra. Não há composições originais no álbum.

Difícil medir "Ain't no Grave" na hierarquia da série "American Recordings". O material soa obrigatório, mas, no saldo geral, fica aquém do volume anterior. Rubin soube distribuir bem o repertório dessas sessões finais, mas poderia ter organizado um póstumo clássico, condensando o melhor dos dois álbuns num único CD.

 
 
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